Há algo curioso em chegar a um lugar onde ninguém sabe quem você é. Roxwood me
recebeu como quem abre a porta sem perguntar o motivo da visita, apenas deixou
que eu entrasse e encontrasse algum canto onde respirar. Talvez estivesse
precisando disso e nem soubesse, de um espaço onde meu nome não carregasse
passado e eu pudesse simplesmente ser anônima. Ando pelas ruas, cruzo os
lugares, escuto as conversas... e é tão comum que absolutamente ninguém me
dirija a palavra que estou começando a pensar que é um costume local.
Isso me fez pensar muito sobre personagens. Não os de ficção, mas os de
carne, os que cruzam a rua com pressa, os que seguram as sacolas de mercado, os
que pedem café sem olhar nos olhos da atendente. Pessoas que não se sabem
personagens. Sempre gostei da ideia de que cada ser humano tem uma história que
ninguém contou completamente, nem mesmo ele próprio. E esse lugar me dá a
sensação de ser invisível e poder ler cada traço. Por isso, decidi algo que
talvez soe estranho, mas que me parece… necessário.
Quero transformar cada
pessoa que eu conhecer em um pequeno laboratório literário. Não no sentido cruel
da palavra, mas como um exercício de escuta, de atenção ou de simples criação.
Quero observar os gestos, os silêncios, os medos que escapam sem querer. Quero
treinar meu olhar para aquilo que não se diz, ironicamente, o mesmo território
para onde sempre fugiram as minhas palavras. Se eu conseguir escrever sobre
alguém que mal conheço, talvez consiga, enfim, escrever sobre mim. Ou talvez
essa seja apenas mais uma desculpa para continuar fugindo do que realmente
preciso enfrentar. Não sei. Mas escrever é, para mim, a forma mais honesta que
encontrei de existir, até num lugar que parece que não sou nada.
Este blog será o registro disso. Cada encontro, cada conversa breve, cada
olhar que ficar preso na minha memória, tudo se tornará uma história, mesmo que
pequena, mesmo que imperfeita. Não será uma biografia dos outros, pelo
contrário, uma tentativa de capturar aquilo que percebo quando os observo: as
frestas. Criarei o restante com as cores que observo.
Seja como for, comecei. E,
estranhamente, isso me traz um pouco de paz.
Helena Luft,
ainda tentando entender o que significa realmente
começar de novo.
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