sábado, 6 de dezembro de 2025

Personagem #03 - A moça que toca silêncios.

 

   Há quem diga que a vida é feita de camadas, algumas visíveis, outras guardadas no fundo de nós, esperando que alguém com olhos pacientes as descubra. Eu cresci acreditando nisso. E aí, num fim de tarde, eu a vi caminhando devagar, como se carregasse dentro do corpo uma música que só ela podia ouvir. Existem pessoas que passam despercebidas pelos lugares, mas certamente ela não é uma delas.
  Pele escura, quente como terra molhada depois da chuva. Traços indianos, delicados e antigos, como se pertencessem a uma linhagem que conversa com o tempo. Beleza suave, mas impossível de ignorar. O que mais me marcou não foi o rosto, nem os passos leves, nem o modo como o vento brincava com os fios soltos do cabelo. Foi o olhar.

   Aquela moça parece ver mais, como se tocasse os silêncios com as mãos. Antes de falar, ela já parecia ter compreendido tudo, como um chá quente oferecido em silêncio. De longe, percebi uma coisa estranha: as pessoas falavam com ela com mais sinceridade do que pretendiam. Talvez por causa da voz dela, tão acolhedora que parecia derrubar qualquer defesa, porque há algo nela que sempre viu além da superfície. Um instinto antigo. Um entendimento que não se explica.
   Ela observa o mundo como quem segura um segredo que nunca pesa, escuta como se cada palavra fosse um objeto frágil. E eu, observando-a do meu canto, desejei que todos pudessem ser vistos desse jeito um dia: sem máscaras, sem ruído, sem o medo constante de serem demais ou de serem pouco.
  Algumas pessoas parecem guardar um mapa invisível dos outros, mas essa moça parece guardar bússolas apenas para indicar caminhos, seja para estradas ou para dentro dela mesma.

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