Idade aparente: entre 20 e 24 anos
Primeira impressão: educado demais para esse lugar.
Aparência: pele clara, cabelos castanhos, óculos leve no rosto e expressão gentil.
Postura e presença: fala mais lento do que muitos, com cuidado de que cada palavra sua seja entendida. É gentil, familiar e aparenta ser protetor com os que ama.
As minhas noites brancas
Há um rapaz que encontro apenas por acaso, como se o destino tivesse um senso de humor muito particular. Ele aparece quando não estou procurando ninguém... na travessia da rua, no banco, no meio da cidade... nunca quando espero. Sempre quando esqueço.
Ele tem algo que não combina com o resto do mundo. Talvez seja o jeito educado demais, como se tivesse sido criado em um tempo onde as palavras eram escolhidas com mais cuidado. Ou talvez sejam os gestos gentis, como cumprimentar as pessoas com sinceridade, como se tudo isso ainda importasse.
Usa óculos de armação fina, que ele ajusta sempre que fica nervoso. Tem pele clara, cabelos castanhos que caem um pouco sobre a testa, e um ar de alguém que ainda não desaprendeu a acreditar nas coisas. Diria que tem entre vinte e vinte e quatro anos, mas sua presença é de alguém mais velho, não na idade, mas na alma. Enquanto todos nesse lugar parecem criticar a segurança, as autoridades... ele deseja ser parte disso. Será que esse é o jeito dele de consertar algo maior?
Quando penso nele, a imagem que me vem é a do Sonhador de Noites Brancas. Há uma suavidade nos dois, uma maneira delicada de existir que parece vinda de um lugar muito quieto. Não é fantasia, nem ingenuidade. É só um jeito de estar no mundo que não machuca ninguém. Dostoiévski certamente escreveria muito melhor, mas nem por isso eu pude deixar de reconhecer coincidências. O Sonhador caminhava pelas ruas esperando que algo o tocasse de verdade. É como se tivesse uma confiança discreta nas pessoas, na vida, naquilo que ainda pode dar certo. Tudo nele parece ter sido aprendido num tempo em que cuidar era natural, não exceção. E se for isso justamente o que falta no mundo hoje? Eu olho ao redor e só sinto que todos procuramos matar uma sede de algo que simplesmente jamais molhará a garganta por completo.
Quando penso nele, a imagem que me vem é a do Sonhador de Noites Brancas. Há uma suavidade nos dois, uma maneira delicada de existir que parece vinda de um lugar muito quieto. Não é fantasia, nem ingenuidade. É só um jeito de estar no mundo que não machuca ninguém. Dostoiévski certamente escreveria muito melhor, mas nem por isso eu pude deixar de reconhecer coincidências. O Sonhador caminhava pelas ruas esperando que algo o tocasse de verdade. É como se tivesse uma confiança discreta nas pessoas, na vida, naquilo que ainda pode dar certo. Tudo nele parece ter sido aprendido num tempo em que cuidar era natural, não exceção. E se for isso justamente o que falta no mundo hoje? Eu olho ao redor e só sinto que todos procuramos matar uma sede de algo que simplesmente jamais molhará a garganta por completo.
Quando ele me entregou uma caixa de pizza diante da porta, disse “cuide-se”, como quem dá um conselho simples e ao mesmo tempo impossível. Depois arrumou os óculos, deu um sorriso pequeno e sumiu na esquina antes que eu pudesse agradecer direito.
Já em outro encontro, eu o vi sozinho na chuva. Fiquei pensando que algumas pessoas passam por nós como uma espécie de acalento involuntário ou simplesmente, como escreveu Dostoiévski, uma Natiénska. Que existem presenças que insistem em cruzar os caminhos, como se fosse um verso que pula da página.
Já em outro encontro, eu o vi sozinho na chuva. Fiquei pensando que algumas pessoas passam por nós como uma espécie de acalento involuntário ou simplesmente, como escreveu Dostoiévski, uma Natiénska. Que existem presenças que insistem em cruzar os caminhos, como se fosse um verso que pula da página.
E talvez eu goste disso nele.
"Uma estranha afinidade com pessoas desconhecidas é sempre um convite ao caos. Ao cosmos. À paixão." - Dostoiévski
Helena Luft
0 comments:
Postar um comentário