Eu pensei em não escrever sobre você.
Não por falta de assunto, mas por falta de coragem. Normalmente me torno cheia de palavras, explicações, teorias... e você trouxe o silêncio.
Se eu fosse te descrever como descrevo outros personagens, talvez começasse pelo óbvio: a pele clara que contrasta com os cabelos escuros, aquele contraste que parece ter sido desenhado para chamar atenção, mas que você usa como se não percebesse.
Ou talvez mencionasse o jeito como caminha, devagar, quase arrastando pensamentos, como se carregasse dentro da cabeça um universo que não sabe onde colocar.
Você se considera estranho. Eu sei. Dá para ler isso em cada gesto contido, em cada hesitação sutil que faz quando alguém tenta chegar perto. Mas o que você chama de estranheza, eu chamaria de profundidade mal ventilada.
Porque há um mundo em você e não é metáfora. É uma biblioteca inteira empilhada atrás dos seus olhos. Livros que você leu, livros que você gostaria de ter escrito, livros que ainda vai viver sem perceber.
Quando te observo, vejo algo que não encontro facilmente nos outros: você não é apático ao mundo, mas que o mundo é raso demais para o que você sente. Então você se recolhe. Não por frieza, mas por preservação.
É curioso. Eu invento personagens o tempo todo, mas quando tento lhe dar forma, você escapa. Te escrevo agora para ver se te encontro nessas linhas. Mas existe algo em você que me prende a atenção como um fio solto na página... o tipo de detalhe que, se puxo, desmonta o texto inteiro.
E ainda assim, eu puxo.
Algumas pessoas nascem para serem lembradas. Outras, para serem escritas.
E você… bem, ainda estou tentando descobrir.
— Helena Luft
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