Primeira impressão: uma figura tímida, quase dissolvida no próprio silêncio.
Aparência: Cabelos longos e escuros, que caem como uma cortina sobre o rosto.
Pele muito clara, de uma palidez que parece vir mais de dentro do que do clima.
Um ar de inocência frágil, com olhos que raramente encontram os de alguém.
Postura e presença:
Caminha com a cabeça baixa, como se o chão fosse o único lugar seguro. Parece sempre encolher-se um pouco e parece pedir desculpa por ocupar espaço. Mas é gentil, mesmo quando parece que o mundo negou isso a ela.
Um dia para levantar os olhos
Tenho observado uma moça que mora perto de mim. Ainda não sei se escreveria seu nome, pois há pessoas que parecem tão frágeis que nomeá-las cedo demais seria quase uma violência, como forçar flores a abrirem antes da hora.
O fato é: ela anda sempre com a cabeça baixa, protegendo o rosto com o cabelo escuro que cai como cortinas. A pele é tão clara que brilha um pouco quando o sol passa, mas não como algo que chama atenção… é um brilho tímido, involuntário, quase um pedido de desculpas por existir.
É jovem e com certeza não sabe da profundidade da própria beleza.
Há algo nela que me toca sem que eu entenda por quê. Talvez seja porque parece ter medo do mundo. Ou talvez porque eu reconheço esse medo.
Hoje a vi em um café de novo. Segurava uma caneca com as duas mãos, como se estivesse aquecendo uma parte sua que o sol não alcança. Ela ficou ali parada, observando o chão como se esperasse que a terra desse alguma resposta. Por um instante, um único, tão rápido que quase duvidei... ela levantou os olhos e olhou para o céu.
Apenas um movimento milimétrico, uma tentativa de existir um pouco mais para cima.
Foi tão breve, tão delicado, que eu senti vontade de aplaudir. Ou talvez de chorar.
Percebi que, mesmo no gesto mais pequeno, havia luta. Ela deseja fortemente existir por si mesma.
Aquela não era apenas a moça tímida, era alguém tentando, aos poucos, deixá-la levantar.
Fiquei imaginando que história guardava dentro de si.
Alguém a machucou? Alguém a ensinou que olhar nos olhos é perigoso? Ou teria aprendido sozinha que levantar a cabeça é convite para o mundo entrar?
Mas algo nela, hoje, sussurrou o contrário. Algo nela pediu um pouco de coragem.
Não me viu...ou fingiu não ver.
Mas eu vi esse instante: o momento em que o medo sumiu por tempo suficiente para deixar a esperança respirar.
Talvez, com o tempo, ela descubra que olhar para cima não a destrói.
Talvez descubra que há pessoas seguras no mundo.
Talvez descubra, até, que pode amar sem desabar.
Por ora, guardo essa cena como quem guarda um segredo bonito e descrevo aqui uma moça muito branca, de cabelos escuros, aprendendo que pode levantar os olhos para o mundo.
E eu, daqui, torço silenciosamente para o próximo centímetro.
“Não posso ser certa de nada a não ser da santidade dos afetos do coração.”
— Virginia Woolf
—
Helena Luft
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